No anseio de se ter algo para dizer,
substitui-se a beleza sincera do silêncio pelo brilho confuso de
falas aleatórias, e, na ausência de afinidade com o silêncio
interior, busca-se a tranquilidade que não existe na turbulência
dos ruídos da vida diária. “Silêncio”: substantivo masculino
para “interrupção de ruído, calada”, “estado de quem se
cala”. O receio que se tem daquele que pouco fala é o retrato do
medo de quem pouco pensa (sobre o silêncio) e este que pouco pensa
tem mais receio ainda de si mesmo do que de outrem, propriamente. É
receoso consigo próprio e com seu silêncio aquele que tem medo de
ouvir a própria voz. E mais que ouvir a própria voz, ele tem medo
de entendê-la e ter que decodificar o que o seu eu, afinal de
contas, tanto tem a dizer dele mesmo – precisaria refletir sobre
si, consigo. Logo, e pior ainda, receia sumariamente que a voz que
ouve sobre si possa ser imitada por gente de fora; pelas pessoas que
não são ele. Eis o medo de ser quem se é por ter que sê-lo
perante qualquer sujeito que não si mesmo; esquivando-se, pois, de
se calar perante o seu eu. Então o barulho, o medo do silêncio
interior e alheio podem ser considerados questão de complexo
individual e também social. Mas voltemos ao silêncio: foge-se dele
por ser extremamente necessário; e na falsa percepção de que
ruídos resolvem silêncios mal-resolvidos, o sujeito se torna caim
de si próprio. Calar a voz interior é calar sua tentativa de
existência; a existência do eu para mim, do si para si sem plateia.
Não à toa entendemos que o verbo “calar” surgira apenas em
1552. Em adendo à questão histórico-social da língua, migremos
para o cunho filosófico a respondamos, em silêncio ou ruídos: se o
adjetivo “silencioso” surgiu em 1813 e o verbo “silenciar”,
profundo e deveras significante, apenas em 1844, podemos entender que
foi no silêncio em plena prática que se aprendeu a silenciar? O que
ouve quem ouve o que ouve no silêncio do próprio ser pelas ondas
sonoras da própria existência?
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
quinta-feira, 21 de março de 2013
Ideias de Rosária (texto 2)
Houve um dia em que, depois do seu café
da manhã configurado por pão, mortadela e café coado, Rosária
teve uma ideia que lhe pareceu sumariamente genial: espalhar livros
ao longo da Rua das Camélias, em que ela morava, para que anualmente
passassem a comemorar o dia da leitura ali. Um único dia de leitura
e regozijo queria ela, embora não fosse dada à leitura. “Que
ridículo, Rosária!”, disseram. “A mulher pirou de vez!”, e
ainda “Ela que vá caçar o que fazer, preguiçosa!” Rosária
Mercedes não se preocupou, à tarde foi que pensou consigo que uma
relação que a deixou deveras confortada: uma ideia nova era como um
lago desconhecido: ninguém se jogava logo de cara, entrava-se aos
poucos, deixando a água visitar o corpo, instalar-se, até que todos
estavam totalmente encharcados com a água do novo lago. O medo do
não convencional amedrontava quase o total da população – o é
desde sempre. Sabia que assim também seria com sua ideia: soaria
receoso, mas aos poucos poder-se-ia instalar o contexto de leitura
que Rosária queria. Todavia demoraria e logo não repercutiu, mas
Rosária Mercedes não tinha pressa nem desdém; foi descascar uma
laranja.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Dos óculos que se usa
Do ponto de vista da águia, o coelho pouco merece o pensar
dela. Por medo ou por coragem, que também é manifestação do medo, o coelho
pensa bastante sobre a águia. Do prisma do rato jantado, a cobra foi o
apocalipse, mas para a cobra o rato foi o fim do caos, o caos da fome. Pensando
por quem tem fome na miséria, pensa-se no que se vai comer. Se a fome vem na
fartura, pensa-se sobretudo acerca do que não é suficientemente bom para
alimentar. Do ângulo do cristão fanático, o ateu é burro; e para o burro ateu,
burro é o fanático. E o burro, real e nem tão animalesco, leva quem for pra lá
e pra cá sem ofender ninguém. Deus lá do alto diz “O Reino é meu!” e o Diabo lá
risonho responde “A vida é minha!”. O time perdedor é ganhador do pretexto da
expressão; para o time que perde quem ganha nunca tem muito o que falar. Ganhar
é perder? Na visão da mãe o bebê saiu, na visão do bebê ele mesmo saiu, mas
para o mundo o bebê entrou, e um dia vai ter que sair. Quando é que as saídas
parecem entradas e nós, eternos bebês, nos confundimos? Do ponto de vista da
orelha que ouve o sussurro do gemido alheio, a outra orelha pode apenas
imaginar o que foi que a adversária amiga ouviu. E quem vive o que vive vai
estar sempre do mesmo lado: o lado próprio do qual não se desvincula. A perspectiva
pode ser dupla, bifurcada, dicotômica, com dois gumes: mas cada um dos gumes é
um prisma completo em si só. Então ou se está aqui ou acolá; não adianta
fingir. No mundo das inferências, impressões e pontos de vista, quem escolhe um
sempre escolhe a si próprio – mesmo que a sua opção seja a não escolha. Mente
para si quem mente uma visão, esta que jamais mente acerca de si embora na mais
profunda raiz da árvore que não é nada senão a gente. A gente que viu, pensou,
ancorou a visão numa definição de crença construída pela linguagem, e daí não
tem como fugir. Do lado da águia ou do lado de Deus, ou de ambos, o prisma é a
fome ou o caos ou o júbilo; tudo vai e tudo fica.
terça-feira, 12 de março de 2013
A Vida de Rosária
Vivia sozinha, não era casada e nem filhos tinha. A casa era pequena, era de madeira, era dela e ali estava ela. Esta era a vida que Rosária tinha pedido a si mesma: pouco fazer, olhar para o céu olhar, não muito pensar e deveras significar. Era daquelas despreocupadas. “Ê, menina, sentada na varanda tais horas da manhã? Ê, vida boa.” Mas Rosária Mercedes não se preocupava, quiçá prestava atenção, mas pouco; continuava a descascar sua laranja, calmamente. Chupava a fruta, comia a fibra, colocava a casca pra secar no varal – útil ao chá e ao chimarrão posteriormente – que poucas roupas prendia, e sentava-se novamente na cadeira que balançava. Sobretudo quando os dias se lhe apresentavam muito bonitos, aí sim é que Rosária nem o serviço de casa fazia. Só amava. Nem a cama arrumava. De tanto amar a vida e tão sem se preocupar, as vizinhas estavam sempre a se incomodar. “É uma baita duma preguiçosa, isso sim!” E é assim que era Rosária Mercedes de Jesus: vagarosamente pra quem via de fora e esta era sua vida, sem pressa nem tempo.
terça-feira, 12 de junho de 2012
Parábola da arrogância
Em verdade vos digo: aquele que possuir o discurso em concordância com seu pensamento; aquele que usar suas dracmas para o que almejar; aquele que gozar de sua própria criticidade para estabelecer o que é joio e o que é trigo; aquele adepto da desconstrução que alega não ser terra boa; aquele que asseverar que não se atira a primeira pedra, tampouco a segunda e jamais a terceira porque de pedras se usufrui maneiras mais concretas que atira-las nas faces medíocres; aquele que compreender que o cuspe escarrado só ocorre porque da boca que o projeta não emana algo de melhor qualidade que cuspidas rumadas aos pés alheios; aquele que assimilar em essência que verdade só é verdade sendo a verdade do sujeito em integridade e usufruto; aquele que reconhecer Judas como simplesmente um homem plural; aquele que realmente for filho de Deus e fizer uso disso dentro de atribuições racionalizadas e aplicadas; aquele que se chocar ao perceber que a cegueira dos Joãos, sendo simbólica, é tão logo muito mais árdua de curar será o exímio arrogante da sociedade. Pois tendo chegado Jacob, seguido de Pedro e junto de Marcos, adentraram a sinagoga de encontro ao Messias e assim que se achegaram, disse-lhes o saudoso filho de Deus: – que honra tenho por receber tão ilustre visita? E os visitantes, tendo feito cara de desdém perante o léxico bem-articulado de Jesus, responderam-lhe:
– Viemos transmitir tamanha atrocidade que realiza uma mulher: Maria Madalena, Messias, está a prostituir-se pelas ruas de Jerusalém qual a pior das pecadoras! E Jesus, tendo-lhes apresentado sua face em notoriamente projetada em natureza morta, logo em catarse mudara repentina e ironicamente sua expressão dando ênfase às sobrancelhas que quase tocavam o céu, respondeu-lhes em maiêutica refinada seguida de pergunta: – sendo o corpo de Maria Madalena inteiramente dela e de uso intransferível – neste momento do pensamento quase deu-se aos risos por pensar sarcasticamente “exceto à noite” mas prosseguiu – não será coerente concluirmos que faz, Maria Madalena, de fato, o que bem lhe for desejoso com o próprio corpo?
Em verdade completo-lhes: aquele que possuir identidade, existir numa fiel – subjetiva – aliança entre discurso, espírito e obra será tido como arrogante. Ao bom uso da ironia, do sarcasmo, do sorriso bem-pensado e do caminho analisado, será acoplada como condescendente a arte da arrogância. Nada mais arrogantemente puro que ser sincero. Porque de tudo que não sabemos ser e compreender, apenas nos cabe pobremente julgar; configurando-se-lhe o apontamento da arrogância alheia, visto que não lhe exista, o fundamento intrínseco do fracasso daquele que o profere. Palavras de um senhor.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
A importância de estar nu
A verdade se exala na velocidade com a qual a
roupa se ausenta. O duvidoso de desfaz à presença do nu. Naturalizar o nu é
institucionalizar e ambientar o sincero. A mentira para o nu é uma blasfêmia. O
corpo sintoniza o divino na sua expressão de liberdade. A liberdade para o
orgânico é não ser cristalizado. O nu explica o que a veste inventa e a alma se
autojustifica perante o universo. Apenas a nudez apresenta a verdadeira beleza
perante o emaranhado de linhos que a tenta inibir. O fazer social travou o que
nu tenta dizer, deixando-o despido de seu próprio sentido. Não houve palavra
que dissesse o que os seios à luz podem argumentar. A tragédia do corpo é estar
envolto das vestes e a tragédia das vestes é a distância do corpo. O sujeito
fica mudo e parece um absurdo porque a sua fala vestida é uma contradição. As
linhas corporais são uma bússola existencial. A disposição de cada membro
confere uma espécie de orientação. O momento da nudez é a revelação da
essência. A pele no mundo cria um sonho idealizado: o nu é a catarse. Não há
contexto que se mantenha intacto na veracidade da nudez. Ela
conserta, embeleza e recupera-se. Na saudade da verdade e com vontade de se
despir, o corpo decide ficar nu e fica eterno.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Amor literário
A dicotomia dos interesses parecia deixar o menino sempre a movimentar sua pupila para um lado e para o oposto, assim como fazia sua cabeça nos momentos de não solução. Embora satisfeito – pelo interesse alheio apresentado. Enquanto pensava cuidadosamente nas suas sete irmãs e alguns irmãos, acerca de situações corriqueiras, misturara-se sua linha do pensamento a uma outra esfera de raciocínio: as pessoas adoravam os dizeres dele e isso o deixava reflexivo. Reflexivo porque, então, o complemento era difuso. Deveras difuso: alegavam amar as palavras que saiam de seu coração. O menino falava de amor mas não se confortava com o fato de ilustrarem seu discurso literário indissociavelmente de sua existência emocional. O sentido que causavam tais palavras não modificava uma grande verdade individualmente convencionada: em grande parte, eram apenas palavras. O acontecimento era pensado, racional, não amava e nem era amado. Só versava. Suas irmãs um tanto o compreendiam, talvez pela observância por uma lente próxima promovida pela intimidade e liberdade de acesso sem censura ao que ele expunha. Mas não queria a junção de seus versos com seu coração que, mesmo piamente de uma atmosfera humana e bem-humanizada, fazia por bombear sangue para o seu organismo – e nisso resumia-se toda a importância de tal coração. Para ele era bastante claro: falava tanto de amor por ser algo que ele essencialmente não sentia.
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