No
mercado João chegou otimista, olhando para o chão e contendo a boca
para não sorrir demais, visto que perderia seu foco das compras,
dar-se-ia por confuso e toda a oratória ensaiada aos tremores e
pausas em casa seria em vão. Começou já na quarta-feira a pensar
na prosa mercantil: queria comprar um pedaço pequeno de um frango
qualquer, e duas velas grossas verdes para a lápide de sua vózinha. Na
sexta-feira o homem já quase falava corrente; passasse moça na rua
matutaria que João Augusto havia-se mudado. Mas não, só havia
mudado a fala que nem fala era, dado teor de ensaio. Levantou cedo no
sábado e chegou no mercadinho, pois. Lugar pequeno, poucas pessoas e
muito contexto: "Pedaço de frango qualquer, João? Como é?".
E eis que a missa ligeira do João-enrolado foi-se mercado afora. E
pensar que pensou João em adjetivar o frango de "qualquer"
para parecer corriqueirice da vida dele; queria fingir, João, que ia
sempre ao mercado e proseava com todo o povo. Foi-se para casa, com
uma mão fora do bolso e a cara toda para dentro, não comeu frango e
tampouco codorna, vela não foi acesa e a reza não foi proferida.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Caminhos de Rosária (texto 3)
Dia destes decidira caminhar, muito
vagarosamente, pelo vilarejo. Afazeres aqui e acolá mas
desimportantes se a vontade era no nada ficar. Um nada bastante bonito, é verdade. Rosária olhava o céu,
fitava as árvores e via a si mesma. Assim era Rosária. “Lá vai a
preguiçosa bater perna”, pensava sua vizinha, “tem mais o que
faz não?”, irava a indignada sempre ocupada. “Ô, que ocupada”,
diria Rosária sobre a vizinha, mas não agora que o intento era
caminhar nos pensamentos - ou não pensamentos. A verdade é que Rosária tinha noção e
muita de tudo o que tinha que fazer e das coisas da vida, então
saíra naquela tarde ensolarada para descobrir um pouco mais de
tudo. Daqui um pouco avistou no chão uma folhinha bonita, tomou e
mãos, admirou, pouco pensou. Rosária caminhava qual uma garça
lenta e satisfeita com o peixe que comeu: comeria mais quando
necessário, mas por ora apenas queria observar. E de suas
observâncias é que a catarse acontecia: andava consigo, sozinha,
com Deus e Nossa Senhora; essa era a vida de Rosária. “Falta é
vergonha na cara dessa safada”, prosseguia a vizinha no seu ritual
de desmerecimento, “uma baita duma preguiçosa, isso sim!” E
Rosária que de nada sabia mas que de outro muito sabia seguiu sua caminhada, sem
tempo nem racionamento, depois voltou pra casa e a vida continuou.
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Ensaio sobre o silêncio
No anseio de se ter algo para dizer,
substitui-se a beleza sincera do silêncio pelo brilho confuso de
falas aleatórias, e, na ausência de afinidade com o silêncio
interior, busca-se a tranquilidade que não existe na turbulência
dos ruídos da vida diária. “Silêncio”: substantivo masculino
para “interrupção de ruído, calada”, “estado de quem se
cala”. O receio que se tem daquele que pouco fala é o retrato do
medo de quem pouco pensa (sobre o silêncio) e este que pouco pensa
tem mais receio ainda de si mesmo do que de outrem, propriamente. É
receoso consigo próprio e com seu silêncio aquele que tem medo de
ouvir a própria voz. E mais que ouvir a própria voz, ele tem medo
de entendê-la e ter que decodificar o que o seu eu, afinal de
contas, tanto tem a dizer dele mesmo – precisaria refletir sobre
si, consigo. Logo, e pior ainda, receia sumariamente que a voz que
ouve sobre si possa ser imitada por gente de fora; pelas pessoas que
não são ele. Eis o medo de ser quem se é por ter que sê-lo
perante qualquer sujeito que não si mesmo; esquivando-se, pois, de
se calar perante o seu eu. Então o barulho, o medo do silêncio
interior e alheio podem ser considerados questão de complexo
individual e também social. Mas voltemos ao silêncio: foge-se dele
por ser extremamente necessário; e na falsa percepção de que
ruídos resolvem silêncios mal-resolvidos, o sujeito se torna caim
de si próprio. Calar a voz interior é calar sua tentativa de
existência; a existência do eu para mim, do si para si sem plateia.
Não à toa entendemos que o verbo “calar” surgira apenas em
1552. Em adendo à questão histórico-social da língua, migremos
para o cunho filosófico a respondamos, em silêncio ou ruídos: se o
adjetivo “silencioso” surgiu em 1813 e o verbo “silenciar”,
profundo e deveras significante, apenas em 1844, podemos entender que
foi no silêncio em plena prática que se aprendeu a silenciar? O que
ouve quem ouve o que ouve no silêncio do próprio ser pelas ondas
sonoras da própria existência?
quinta-feira, 21 de março de 2013
Ideias de Rosária (texto 2)
Houve um dia em que, depois do seu café
da manhã configurado por pão, mortadela e café coado, Rosária
teve uma ideia que lhe pareceu sumariamente genial: espalhar livros
ao longo da Rua das Camélias, em que ela morava, para que anualmente
passassem a comemorar o dia da leitura ali. Um único dia de leitura
e regozijo queria ela, embora não fosse dada à leitura. “Que
ridículo, Rosária!”, disseram. “A mulher pirou de vez!”, e
ainda “Ela que vá caçar o que fazer, preguiçosa!” Rosária
Mercedes não se preocupou, à tarde foi que pensou consigo que uma
relação que a deixou deveras confortada: uma ideia nova era como um
lago desconhecido: ninguém se jogava logo de cara, entrava-se aos
poucos, deixando a água visitar o corpo, instalar-se, até que todos
estavam totalmente encharcados com a água do novo lago. O medo do
não convencional amedrontava quase o total da população – o é
desde sempre. Sabia que assim também seria com sua ideia: soaria
receoso, mas aos poucos poder-se-ia instalar o contexto de leitura
que Rosária queria. Todavia demoraria e logo não repercutiu, mas
Rosária Mercedes não tinha pressa nem desdém; foi descascar uma
laranja.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Dos óculos que se usa
Do ponto de vista da águia, o coelho pouco merece o pensar
dela. Por medo ou por coragem, que também é manifestação do medo, o coelho
pensa bastante sobre a águia. Do prisma do rato jantado, a cobra foi o
apocalipse, mas para a cobra o rato foi o fim do caos, o caos da fome. Pensando
por quem tem fome na miséria, pensa-se no que se vai comer. Se a fome vem na
fartura, pensa-se sobretudo acerca do que não é suficientemente bom para
alimentar. Do ângulo do cristão fanático, o ateu é burro; e para o burro ateu,
burro é o fanático. E o burro, real e nem tão animalesco, leva quem for pra lá
e pra cá sem ofender ninguém. Deus lá do alto diz “O Reino é meu!” e o Diabo lá
risonho responde “A vida é minha!”. O time perdedor é ganhador do pretexto da
expressão; para o time que perde quem ganha nunca tem muito o que falar. Ganhar
é perder? Na visão da mãe o bebê saiu, na visão do bebê ele mesmo saiu, mas
para o mundo o bebê entrou, e um dia vai ter que sair. Quando é que as saídas
parecem entradas e nós, eternos bebês, nos confundimos? Do ponto de vista da
orelha que ouve o sussurro do gemido alheio, a outra orelha pode apenas
imaginar o que foi que a adversária amiga ouviu. E quem vive o que vive vai
estar sempre do mesmo lado: o lado próprio do qual não se desvincula. A perspectiva
pode ser dupla, bifurcada, dicotômica, com dois gumes: mas cada um dos gumes é
um prisma completo em si só. Então ou se está aqui ou acolá; não adianta
fingir. No mundo das inferências, impressões e pontos de vista, quem escolhe um
sempre escolhe a si próprio – mesmo que a sua opção seja a não escolha. Mente
para si quem mente uma visão, esta que jamais mente acerca de si embora na mais
profunda raiz da árvore que não é nada senão a gente. A gente que viu, pensou,
ancorou a visão numa definição de crença construída pela linguagem, e daí não
tem como fugir. Do lado da águia ou do lado de Deus, ou de ambos, o prisma é a
fome ou o caos ou o júbilo; tudo vai e tudo fica.
terça-feira, 12 de março de 2013
A Vida de Rosária
Vivia sozinha, não era casada e nem filhos tinha. A casa era pequena, era de madeira, era dela e ali estava ela. Esta era a vida que Rosária tinha pedido a si mesma: pouco fazer, olhar para o céu olhar, não muito pensar e deveras significar. Era daquelas despreocupadas. “Ê, menina, sentada na varanda tais horas da manhã? Ê, vida boa.” Mas Rosária Mercedes não se preocupava, quiçá prestava atenção, mas pouco; continuava a descascar sua laranja, calmamente. Chupava a fruta, comia a fibra, colocava a casca pra secar no varal – útil ao chá e ao chimarrão posteriormente – que poucas roupas prendia, e sentava-se novamente na cadeira que balançava. Sobretudo quando os dias se lhe apresentavam muito bonitos, aí sim é que Rosária nem o serviço de casa fazia. Só amava. Nem a cama arrumava. De tanto amar a vida e tão sem se preocupar, as vizinhas estavam sempre a se incomodar. “É uma baita duma preguiçosa, isso sim!” E é assim que era Rosária Mercedes de Jesus: vagarosamente pra quem via de fora e esta era sua vida, sem pressa nem tempo.
terça-feira, 12 de junho de 2012
Parábola da arrogância
Em verdade vos digo: aquele que possuir o discurso em concordância com seu pensamento; aquele que usar suas dracmas para o que almejar; aquele que gozar de sua própria criticidade para estabelecer o que é joio e o que é trigo; aquele adepto da desconstrução que alega não ser terra boa; aquele que asseverar que não se atira a primeira pedra, tampouco a segunda e jamais a terceira porque de pedras se usufrui maneiras mais concretas que atira-las nas faces medíocres; aquele que compreender que o cuspe escarrado só ocorre porque da boca que o projeta não emana algo de melhor qualidade que cuspidas rumadas aos pés alheios; aquele que assimilar em essência que verdade só é verdade sendo a verdade do sujeito em integridade e usufruto; aquele que reconhecer Judas como simplesmente um homem plural; aquele que realmente for filho de Deus e fizer uso disso dentro de atribuições racionalizadas e aplicadas; aquele que se chocar ao perceber que a cegueira dos Joãos, sendo simbólica, é tão logo muito mais árdua de curar será o exímio arrogante da sociedade. Pois tendo chegado Jacob, seguido de Pedro e junto de Marcos, adentraram a sinagoga de encontro ao Messias e assim que se achegaram, disse-lhes o saudoso filho de Deus: – que honra tenho por receber tão ilustre visita? E os visitantes, tendo feito cara de desdém perante o léxico bem-articulado de Jesus, responderam-lhe:
– Viemos transmitir tamanha atrocidade que realiza uma mulher: Maria Madalena, Messias, está a prostituir-se pelas ruas de Jerusalém qual a pior das pecadoras! E Jesus, tendo-lhes apresentado sua face em notoriamente projetada em natureza morta, logo em catarse mudara repentina e ironicamente sua expressão dando ênfase às sobrancelhas que quase tocavam o céu, respondeu-lhes em maiêutica refinada seguida de pergunta: – sendo o corpo de Maria Madalena inteiramente dela e de uso intransferível – neste momento do pensamento quase deu-se aos risos por pensar sarcasticamente “exceto à noite” mas prosseguiu – não será coerente concluirmos que faz, Maria Madalena, de fato, o que bem lhe for desejoso com o próprio corpo?
Em verdade completo-lhes: aquele que possuir identidade, existir numa fiel – subjetiva – aliança entre discurso, espírito e obra será tido como arrogante. Ao bom uso da ironia, do sarcasmo, do sorriso bem-pensado e do caminho analisado, será acoplada como condescendente a arte da arrogância. Nada mais arrogantemente puro que ser sincero. Porque de tudo que não sabemos ser e compreender, apenas nos cabe pobremente julgar; configurando-se-lhe o apontamento da arrogância alheia, visto que não lhe exista, o fundamento intrínseco do fracasso daquele que o profere. Palavras de um senhor.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
A importância de estar nu
A verdade se exala na velocidade com a qual a
roupa se ausenta. O duvidoso de desfaz à presença do nu. Naturalizar o nu é
institucionalizar e ambientar o sincero. A mentira para o nu é uma blasfêmia. O
corpo sintoniza o divino na sua expressão de liberdade. A liberdade para o
orgânico é não ser cristalizado. O nu explica o que a veste inventa e a alma se
autojustifica perante o universo. Apenas a nudez apresenta a verdadeira beleza
perante o emaranhado de linhos que a tenta inibir. O fazer social travou o que
nu tenta dizer, deixando-o despido de seu próprio sentido. Não houve palavra
que dissesse o que os seios à luz podem argumentar. A tragédia do corpo é estar
envolto das vestes e a tragédia das vestes é a distância do corpo. O sujeito
fica mudo e parece um absurdo porque a sua fala vestida é uma contradição. As
linhas corporais são uma bússola existencial. A disposição de cada membro
confere uma espécie de orientação. O momento da nudez é a revelação da
essência. A pele no mundo cria um sonho idealizado: o nu é a catarse. Não há
contexto que se mantenha intacto na veracidade da nudez. Ela
conserta, embeleza e recupera-se. Na saudade da verdade e com vontade de se
despir, o corpo decide ficar nu e fica eterno.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Amor literário
A dicotomia dos interesses parecia deixar o menino sempre a movimentar sua pupila para um lado e para o oposto, assim como fazia sua cabeça nos momentos de não solução. Embora satisfeito – pelo interesse alheio apresentado. Enquanto pensava cuidadosamente nas suas sete irmãs e alguns irmãos, acerca de situações corriqueiras, misturara-se sua linha do pensamento a uma outra esfera de raciocínio: as pessoas adoravam os dizeres dele e isso o deixava reflexivo. Reflexivo porque, então, o complemento era difuso. Deveras difuso: alegavam amar as palavras que saiam de seu coração. O menino falava de amor mas não se confortava com o fato de ilustrarem seu discurso literário indissociavelmente de sua existência emocional. O sentido que causavam tais palavras não modificava uma grande verdade individualmente convencionada: em grande parte, eram apenas palavras. O acontecimento era pensado, racional, não amava e nem era amado. Só versava. Suas irmãs um tanto o compreendiam, talvez pela observância por uma lente próxima promovida pela intimidade e liberdade de acesso sem censura ao que ele expunha. Mas não queria a junção de seus versos com seu coração que, mesmo piamente de uma atmosfera humana e bem-humanizada, fazia por bombear sangue para o seu organismo – e nisso resumia-se toda a importância de tal coração. Para ele era bastante claro: falava tanto de amor por ser algo que ele essencialmente não sentia.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Elias sem solidão
----- Deste amor que se
assemelha à esquadria, pretendo eternamente fazer-nos em em verdades, às quais
guardo-te como no alto dessa montanha, intacta aos falsários que pudendo te
quiseram, mas, só eu a tenho – disse em tom de trem ameno.
Elias fora chagásico, em uma época
singular, na qual alimentavam-se olhares e sofria o coração. Alto, de
expandidas medidas e sentimento puro – deixava-se transparecer ainda mais agora
em pico –, cujo faz pospor até o momento. Olhos de carvão refletindo o serviço que
se propôs a realizar com grande carinho – se fora desse quadro quase
condicional não sabia Elias caber em que quer que seja diferente –, duas
jabuticabas a avistar Benícia na turbulência de um dia setembrino, em meio a
bocas remoendo almoço comemorativo quando soube precatar e os pães serviram-lhe
de pretexto ao futuro: história em que encontrava-se agora em tamanha altitude.
Não desdenhava a presente ideia de manter-se ali e assim por muito. Cabelos
pretos e corpo forte lembravam um antigo filme que certa vez vira a moça. A
pele colorida pelo sol fazia de Elias o mais desejado inconfesso. Com dissabor
às estripulias de mulher, jamais retrucara qualquer olhar a alguma figura
feminina que não fosse Benícia – ainda no passado de algo que esteja a ser
tratado agora. Impossível era ter erro, inacreditável, diziam, não fosse
perfeito.
----- Só a ti, serei e estarei
eternamente – desenhando verbalmente o que não é preciso citar. Há seis meses
experimentava a mais intensa e sublime sensação que passara por sua mente nem
em sonho ou nos, atualmente, longos dias de carvoeiro.
Sobre a mesa postada a flor do dia,
havia Elias em casa chegado. Fitava Benícia como se primeira vez fosse,
maravilhando-se igualmente o exímio apaixonado. Do que não se podia compendiar,
expressava-se, Elias, das mais variadas formas não planejadas, mostrando aos
campos longínquos ou lençóis e travesseiros que, sobretudo, era ela sua
inalterável inspiração. De simples passividade, grande e útil, a compassividade
do ser de mãos vistosas com dedos grossos vinha sempre a crescer, tendo em tudo
isso seu combustível que mesmo as fumaças libertas viravam flores por Elias.
Drapejava as roupas ali, quase em êxtase novamente estava em companhia dela.
----- Posso dizer-me em langor, certa
de que nunca cessarás me surpreender. Em tão alto momento, aqui e fora, mal sei
murmurar que me sinto tão feliz e nem se aproxima isso a quando estou na
botoeira que tanto me afeiçoa. Amo-te, Elias, do mais simétrico amor, o mesmo
descrito por palavras suas em momento anterior.
Pois, sem ensaio, bem
conseguia condensar-se com o que vinha de Elias. Suas louras madeixas
esvoaçavam-se aos movimentos que o vento dançava. Em frente ao homem,
enlaçava-se apoiando a cabeça em seu ombro, seus olhos insinuavam conspiração
em fazer combinar com os dele.
----- Somos a
planta nascida da matéria destinada a ser cinza, dizia ela, tecendo entre eles
o princípio de fazer-se um palavrão dito qualquer que não beirasse carinho
espontâneo e vivo entre eles. Dona de casa, fazia o melhor esperando com
agulha, linho e outros o momento de Benício estar em casa. O olhar lançado há
meio ano fora unitivo. Era rosada, contrariando os olhos e aparentando o corpo
e tudo além ser tramado para o resultado que naturalmente era. O
Quarto-de-milha à espera fazia mensão de contagiar-se com o que via, imaginava
a moça. Fosse o bicho um coleante, ao invés de tirá-los ao paraíso viria a
participar dele, integrar-se à beleza do saudoso par.
Seus dias na vila eram assim, nada havia
de mais completo. Em harmonia e bondade, Benícia e Elias subiam além. O grisu
exalado antes do banho por Elias dissipava-se sob a água quente e na inocência
vinha Benícia, compartilhando cada gesto e fazendo desse simples ato um
espetáculo musical.
----- Logo adiante me vejo em esbórnia
de corpo todo se tocado por você qualquer tempo a mais, decorria-se Elias ao que
nada recordava um discurseiro. Utilizar-se de amáveis dizeres envoltava-a em
lindo manto amoroso.
A jovialidade de ambos elaborada com
suas vivacidades não se estragou mesmo sendo dada a resposta de quem
cuidadosamente analisou e havia aprendido para tal. Nada empírico, sem estudo
de ciência. Todavia, com sabedoria de gerações, o tão estimado médico de
formação tão autossuficiente lançou as palavras silenciadas na memória de
Benícia.
----- Digo hoje tal e qual, com total desprendimento: amo-te, Elias, e com
você estarei o restante de meu viver.
Apresentava-se em
segredo, composta de amor e zelo, a alma amante em pura mocidade, com
incertezas do posterior, mas acalmada pelo amor recebido, carregando a terrível
enfermidade percebida.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
O meio
Identifico-me de quando em quando em confusão sobre este
tal de meio. Posso afirmar que não sei se se trata de uma coisa boa,
relativamente, ou ruim. Ou as duas, creio ser possível. O caso é que gostaria
de me sentir finalizado nesse pensamento porque ficar em cima do muro é ficar
no meio, que pode ser centro positivamente evidenciado ou esquecimento – pela
obviedade – e já nem tenho ideia para classificar: o que é, afinal, onde estou?
Se for pra engolir o comprimido, preciso de meio copo de água. O mesmo que
quando estou com sede não faz saciá-la. Na necessidade de livrar-me de
extremismos, o que quero é um meio termo. Com poucas nuvens no céu, complico
para avaliar se está meio ensolarado ou meio nublado, chego até a ficar meio
feliz por ver duas opções – e meio triste por não saber qual escolher. Entretanto,
não cesso refletir sobre isso. Mesmo dando um passo a cada meio ano, ou meio
passo em um trimestre. Não desconsidero, inclusive, a hipótese de uma dúvida
sobre mim: é curiosidade gramatical de posicionamento ou um daltonismo de
extremista que não me permite caber nas condições do meio? Que meio é esse?
Nenhuma das opções afinal, pois já fico meio irritado só de pensar em dialogar
com outro cunho e fugir da minha questão. Regionalmente me satisfaço quando sei
que moro no oeste, mas saber que há quem more no meio oeste me dá até calafrio
discursivo. Será minha atenção nisso meio boba ou é bobagem desse meio em que
estou? Continuo na mesma – recuso-me a pronunciar a outra palavra novamente.
Agora, depois de refletir sobre o assunto, estou ficando meio conformado. Vejo
grande auxílio no meio que o meio utiliza pra me tirar de lá e de cá e
deixar-me ali: no meio. Bateu-me uma alegria espiritualmente racional: a
realidade é que descobri a eficácia ponderada do meio. É muito pessoal. É o que
tenho a dizer: usarei implícita ou explicitamente as formas cabíveis do meio.
Ouso até identificá-lo como a solução em si de certos casos, sem precisar ir a
diante. O meio também é um estado, um começo, um fim, uma conclusão e pode até
ser catártico, dadas as circunstâncias nas quais está aplicado. Esse meio me
pegou de forma ímpar mesmo. É aqui que vou ficar. Às vezes vou amá-lo e outras
até o abominarei. O seu uso é sempre avaliado e é aqui que ficarei: bem no
meio.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
A ausência de moderação voluntária e também o diagnóstico da carência de limites quaiquer tornam-se martírio para os seus praticantes. O drama melancólico e a euforia da felicidade planejada são, certamente, cóleras da condição humana. A tragédia de algumas pessoas é serem puramente racionais. Já outras só vivem sendo inteiramente emocionais, que é a tragédia destas.
As formas grandemente notórias de existência podem parecer bizarras ou
brilhantemente incríveis. A arte é para sujeito todos os conceitos mais
fiéis acerca dele embora não possa entender. A linearidade social trata
os sonhadores como esquizofrênicos. O medo sempre foi o mecanismo leal
para fundamentar a mentira. A verdade só deve ser válida sendo a veste
de maior importância do sujeito que a profere. A única forma de viver é
dizendo essa verdade.
Grande parcela da tristeza humana se dá pela condição de olhar demasiadamente para os lados e interagir na vida muito a sério. Existe uma inestimável diferença entre estabelecer criticidade e ser fechado para a vida. O intelecto confere a diferença de leitura, mas só um sujeito íntegro e com perspicácia tão profunda que quase infantil pode ser verdadeiramente feliz no mundo que temos.
terça-feira, 10 de abril de 2012
Contando histórias
Entre absolutamente todas as coisas existentes, há zilhões de ligações umas com as outras e relações incomensuráveis com histórias incontáveis. Em verdade eu não as conheço, então as invento. Sou um grande mentiroso, mas, de invenções. Ora, se acabou de ser inventado, logo, não pode ser provado como mentira, pois necessário seria exatamente o contrário. Se o contrário não pode vir antes do "descontrário", bom, mas quem disse que não pode? O contrário veio primeiro pois para nascer o "des", precisou vir antes o que não era "des": que nesse caso é o contrário. Solucionado: sou apenas contador de histórias, sem fraudar o oculto, pois é inovador. Ou você acha que os integrantes mais diversos e distintos deste enorme universo não dialogavam entre si? Se não dialogavam, já se viram um dia, e pensaram coisas, então eu vim contar seus pensamentos. Sem fofocar.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Mazelas de Menina
Viver
era-lhe insípido, tentara empunhar a si mesma ao trágico fim que para então se
fazia unicamente solução. Inserida em um vestido finalizado na medida dos
joelhos, bege, de seda, elencado por pobres rendas periféricas e alguns buracos
indesejados; a boca apresentando-se com erosões labiais que o vento construira
nos últimos dias. Seios belos e livres sob a veste. Estava descalça pisando
sobre as pedras camonianas e o abismo à frente mantinha o convite. As pedras
que a acolheram em melhor época de sua vida, estudos e livros, faziam o mesmo
na pior. Havia sido rodeada de falastrões – mãe, companheiro, irmão. Eis a
semente: não ofereceu flores, apenas espinhos, com exceção do profundo
convidativo em que estava à mercê, escolhido por ela mesma. Ventava, ventava em
uma fúria calmante. Não havia frio, não climático, e a leve brisa apenas a
estimulava. A morte representava-lhe o alcácer. Rosália era de uma cor
celeste diária de abril em presença do sol. Coração puro e olhar perdido. Era
início da manhã e da concretização de um desejo que crescera: Rosária
matar-se-ia. Cansou das tantas vozes. Estava parada, em meio a sua confusão e
aparentemente decidida. Arrostava a situação em sua mente, as memórias
reboavam: suas leituras, tão abstratas e a única verdade. Queria se matar,
Rosália. Unhas descuidadas, o cabelo longo de um castanho acinzentado e os
olhos, estes sim, gritavam por sentido – qual se projetava naquele voo
planejado, construído. Como uma águia, rumo ao mar. Jogar-se-ia, decididamente.
As diversas literaturas pintalgavam seu pensamento inconcluso. Rosália desensarilhou
o que levaria no pulo: o melhor lido. E o resto ficaria nas pedras e ao mundo.
Berço
das dores, algo copioso.
Quis diferença, não teve, quis diferente.
Seu conhecimento basco, estudos de latim, literariedades longínquas.
Recordou-se do aroma do marido, enquanto agradou-se em acariciar suas junturas
com a língua, a mesma que sabia ainda francês. Seus olhos de anil traziam a
moléstia crucial: sintomas de antivida.
Estática, postada ao final do pisável e com o olhar suicida, tomaria sua
atitude. Poderia realizar inúmeras leituras. Com a mente em liça, Rosália fita
o mar sem fim.
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