sexta-feira, 27 de abril de 2012

Amor literário

          A dicotomia dos interesses parecia deixar o menino sempre a movimentar sua pupila para um lado e para o oposto, assim como fazia sua cabeça nos momentos de não solução. Embora satisfeito – pelo interesse alheio apresentado. Enquanto pensava cuidadosamente nas suas sete irmãs e alguns irmãos, acerca de situações corriqueiras, misturara-se sua linha do pensamento a uma outra esfera de raciocínio: as pessoas adoravam os dizeres dele e isso o deixava reflexivo. Reflexivo porque, então, o complemento era difuso. Deveras difuso: alegavam amar as palavras que saiam de seu coração. O menino falava de amor mas não se confortava com o fato de ilustrarem seu discurso literário indissociavelmente de sua existência emocional. O sentido que causavam tais palavras não modificava uma grande verdade individualmente convencionada: em grande parte, eram apenas palavras. O acontecimento era pensado, racional, não amava e nem era amado. Só versava. Suas irmãs um tanto o compreendiam, talvez pela observância por uma lente próxima promovida pela intimidade e liberdade de acesso sem censura ao que ele expunha. Mas não queria a junção de seus versos com seu coração que, mesmo piamente de uma atmosfera humana e bem-humanizada, fazia por bombear sangue para o seu organismo – e nisso resumia-se toda a importância de tal coração. Para ele era bastante claro: falava tanto de amor por ser algo que ele essencialmente não sentia.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Elias sem solidão


          ----- Deste amor que se assemelha à esquadria, pretendo eternamente fazer-nos em em verdades, às quais guardo-te como no alto dessa montanha, intacta aos falsários que pudendo te quiseram, mas, só eu a tenho – disse em tom de trem ameno.
            Elias fora chagásico, em uma época singular, na qual alimentavam-se olhares e sofria o coração. Alto, de expandidas medidas e sentimento puro – deixava-se transparecer ainda mais agora em pico –, cujo faz pospor até o momento. Olhos de carvão refletindo o serviço que se propôs a realizar com grande carinho – se fora desse quadro quase condicional não sabia Elias caber em que quer que seja diferente –, duas jabuticabas a avistar Benícia na turbulência de um dia setembrino, em meio a bocas remoendo almoço comemorativo quando soube precatar e os pães serviram-lhe de pretexto ao futuro: história em que encontrava-se agora em tamanha altitude. Não desdenhava a presente ideia de manter-se ali e assim por muito. Cabelos pretos e corpo forte lembravam um antigo filme que certa vez vira a moça. A pele colorida pelo sol fazia de Elias o mais desejado inconfesso. Com dissabor às estripulias de mulher, jamais retrucara qualquer olhar a alguma figura feminina que não fosse Benícia – ainda no passado de algo que esteja a ser tratado agora. Impossível era ter erro, inacreditável, diziam, não fosse perfeito.
            ----- Só a ti, serei e estarei eternamente – desenhando verbalmente o que não é preciso citar. Há seis meses experimentava a mais intensa e sublime sensação que passara por sua mente nem em sonho ou nos, atualmente, longos dias de carvoeiro.
            Sobre a mesa postada a flor do dia, havia Elias em casa chegado. Fitava Benícia como se primeira vez fosse, maravilhando-se igualmente o exímio apaixonado. Do que não se podia compendiar, expressava-se, Elias, das mais variadas formas não planejadas, mostrando aos campos longínquos ou lençóis e travesseiros que, sobretudo, era ela sua inalterável inspiração. De simples passividade, grande e útil, a compassividade do ser de mãos vistosas com dedos grossos vinha sempre a crescer, tendo em tudo isso seu combustível que mesmo as fumaças libertas viravam flores por Elias. Drapejava as roupas ali, quase em êxtase novamente estava em companhia dela.
            ----- Posso dizer-me em langor, certa de que nunca cessarás me surpreender. Em tão alto momento, aqui e fora, mal sei murmurar que me sinto tão feliz e nem se aproxima isso a quando estou na botoeira que tanto me afeiçoa. Amo-te, Elias, do mais simétrico amor, o mesmo descrito por palavras suas em momento anterior.
Pois, sem ensaio, bem conseguia condensar-se com o que vinha de Elias. Suas louras madeixas esvoaçavam-se aos movimentos que o vento dançava. Em frente ao homem, enlaçava-se apoiando a cabeça em seu ombro, seus olhos insinuavam conspiração em fazer combinar com os dele.
 ----- Somos a planta nascida da matéria destinada a ser cinza, dizia ela, tecendo entre eles o princípio de fazer-se um palavrão dito qualquer que não beirasse carinho espontâneo e vivo entre eles. Dona de casa, fazia o melhor esperando com agulha, linho e outros o momento de Benício estar em casa. O olhar lançado há meio ano fora unitivo. Era rosada, contrariando os olhos e aparentando o corpo e tudo além ser tramado para o resultado que naturalmente era. O Quarto-de-milha à espera fazia mensão de contagiar-se com o que via, imaginava a moça. Fosse o bicho um coleante, ao invés de tirá-los ao paraíso viria a participar dele, integrar-se à beleza do saudoso par.
            Seus dias na vila eram assim, nada havia de mais completo. Em harmonia e bondade, Benícia e Elias subiam além. O grisu exalado antes do banho por Elias dissipava-se sob a água quente e na inocência vinha Benícia, compartilhando cada gesto e fazendo desse simples ato um espetáculo musical.
            ----- Logo adiante me vejo em esbórnia de corpo todo se tocado por você qualquer tempo a mais, decorria-se Elias ao que nada recordava um discurseiro. Utilizar-se de amáveis dizeres envoltava-a em lindo manto amoroso.
            A jovialidade de ambos elaborada com suas vivacidades não se estragou mesmo sendo dada a resposta de quem cuidadosamente analisou e havia aprendido para tal. Nada empírico, sem estudo de ciência. Todavia, com sabedoria de gerações, o tão estimado médico de formação tão autossuficiente lançou as palavras silenciadas na memória de Benícia.
            ----- Digo  hoje tal e qual, com total desprendimento: amo-te, Elias, e com você estarei o restante de meu viver.
Apresentava-se em segredo, composta de amor e zelo, a alma amante em pura mocidade, com incertezas do posterior, mas acalmada pelo amor recebido, carregando a terrível enfermidade percebida.
 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O meio


Identifico-me de quando em quando em confusão sobre este tal de meio. Posso afirmar que não sei se se trata de uma coisa boa, relativamente, ou ruim. Ou as duas, creio ser possível. O caso é que gostaria de me sentir finalizado nesse pensamento porque ficar em cima do muro é ficar no meio, que pode ser centro positivamente evidenciado ou esquecimento – pela obviedade – e já nem tenho ideia para classificar: o que é, afinal, onde estou? Se for pra engolir o comprimido, preciso de meio copo de água. O mesmo que quando estou com sede não faz saciá-la. Na necessidade de livrar-me de extremismos, o que quero é um meio termo. Com poucas nuvens no céu, complico para avaliar se está meio ensolarado ou meio nublado, chego até a ficar meio feliz por ver duas opções – e meio triste por não saber qual escolher. Entretanto, não cesso refletir sobre isso. Mesmo dando um passo a cada meio ano, ou meio passo em um trimestre. Não desconsidero, inclusive, a hipótese de uma dúvida sobre mim: é curiosidade gramatical de posicionamento ou um daltonismo de extremista que não me permite caber nas condições do meio? Que meio é esse? Nenhuma das opções afinal, pois já fico meio irritado só de pensar em dialogar com outro cunho e fugir da minha questão. Regionalmente me satisfaço quando sei que moro no oeste, mas saber que há quem more no meio oeste me dá até calafrio discursivo. Será minha atenção nisso meio boba ou é bobagem desse meio em que estou? Continuo na mesma – recuso-me a pronunciar a outra palavra novamente. Agora, depois de refletir sobre o assunto, estou ficando meio conformado. Vejo grande auxílio no meio que o meio utiliza pra me tirar de lá e de cá e deixar-me ali: no meio. Bateu-me uma alegria espiritualmente racional: a realidade é que descobri a eficácia ponderada do meio. É muito pessoal. É o que tenho a dizer: usarei implícita ou explicitamente as formas cabíveis do meio. Ouso até identificá-lo como a solução em si de certos casos, sem precisar ir a diante. O meio também é um estado, um começo, um fim, uma conclusão e pode até ser catártico, dadas as circunstâncias nas quais está aplicado. Esse meio me pegou de forma ímpar mesmo. É aqui que vou ficar. Às vezes vou amá-lo e outras até o abominarei. O seu uso é sempre avaliado e é aqui que ficarei: bem no meio.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A ausência de moderação voluntária e também o diagnóstico da carência de limites quaiquer tornam-se  martírio para os seus praticantes. O drama melancólico e a euforia da felicidade planejada são, certamente, cóleras da condição humana. A tragédia de algumas pessoas é serem  puramente racionais. Já outras só vivem sendo inteiramente emocionais, que é a tragédia destas.
A sinceridade algumas vezes se confunde com aspereza. As pedras rudes são as mais úteis. De nada vale um diamante coroando um corpo morto.
Há uma proximidade paradoxal proveniente do final de leituras e relacionamentos amorosos. Apesar da catarse, quando o livro se acaba os fantasmas permanecem nas páginas escritas. Na literatura os fantasmas não te perseguem.
As formas grandemente notórias de existência podem parecer bizarras ou brilhantemente incríveis. A arte é para sujeito todos os conceitos mais fiéis acerca dele embora não possa entender. A linearidade social trata os sonhadores como esquizofrênicos. O medo sempre foi o mecanismo leal para fundamentar a mentira. A verdade só deve ser válida sendo a veste de maior importância do sujeito que a profere. A única forma de viver é dizendo essa verdade.